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| TÍTULO : Para Ler e Pensar | |||||||||
Em contraste com tantas publicações centradas na ação das fórmulas mágicas para a chamada auto-ajuda, os três pequenos volumes da Coleção “Para Ler e Pensar” surgem para estimular, em seus leitores, a capacidade de pensar, instrumento privilegiado para auxiliá-los na compreensão dos problemas e dificuldades vivenciados em seu cotidiano psicológico. Eles ilustram bem o pensamento de Pascal que foi incorporado à sabedoria geral e que, em nossa cultura pode até ser entoado na melodia popular (de Marino Pinto, interpretada, entre outros, por João Gilberto): “O coração tem razões que a própria razão desconhece”... Aliás, é na elucidação dessas razões desconhecidas pela Razão que a psicanálise encontra sua razão de existir.
Já na contra-capa, a natureza e o objetivo da coleção são definidos com clareza. Seus livros, formados por capítulos curtos e independentes, escritos em linguagem coloquial escorreita e agradável de ler, apresentam situações e conflitos do dia-a-dia contemporâneo sob um ponto de vista psicanalítico. E têm, por finalidade maior, habilitar os leitores a refletir sobre as questões psicológicas que vivenciam na vida diária e que, muitas vezes, são causa de perplexidade, angústia, sofrimento e dor psíquica.
Foram concebidos para alcançar o publico não afeito à psicanálise, mas sua concisão permite que mesmo aqueles já conhecedores da psicanálise possam reavivar seus conhecimentos. Brevidade e exatidão serão marcas de sua origem: as palestras elaboradas pela equipe de analistas da S.B.P.R.J., que escreveram e apresentam o programa “Escutar e Pensar”, transmitido pela Rádio MEC-AM desde 2001, sob a coordenação de Sonia Eva Tucherman, organizadora também da coleção. A proveniência dos três livros é, portanto, similar às de obras de analistas como Harry Guntrip que, na Inglaterra, em 1950, realizou uma série de palestras radiofônicas, tentando compartilhar com os ouvintes noções psicanalíticas referentes à compreensão da Neurose. As palestras motivaram mais de mil cartas e foram depois publicadas com acréscimos no livro “You and your nerves” (“Como descobrir e curar neuroses”, na tradução brasileira da Editora Vozes de 1971).
Os textos de “Para Ler e Pensar” não são, porém, calcados em perguntas vindas do público e referidos a uma casuística individual do autor da consulta – o que possibilita maior liberdade para suas reflexões e impede qualquer sedução pelo pitoresco ou anedótico. Sua divisão por temas que dão nome a cada um dos três volumes –“Família”, “Sentimentos”, Sexualidade” - cria limites e rotas para que o leitor não se perca e permite um enfoque mais clarificador dos assuntos abordados. E finalmente, a existência de uma equipe formada por vários autores independentes produz uma diversidade de visões que impede a monotonia. Ao mesmo tempo, o mergulho dos autores no relativo anonimato de um conjunto afinado evita todo e qualquer laivo de personalismo desgastante e, paradoxalmente, confere uniformidade aos vários capítulos. Todos os textos pertencem à equipe e, como numa orquestra, unem-se para compor os sons de uma mesma harmonia.
A tarefa de todos esses autores psicanalistas– e de Sonia Eva Tucherman, a analista que coordena o programa e organizou o livro – deve ter sido mais trabalhosa do que aparenta. Pois, para realizá-la, possivelmente enfrentaram um número expressivo de questões. Como levar as compreensões da psicanálise a um público que as desconhece ou delas possui apenas vagas ideias deturpadas? Como apresentar a esse público de ouvintes e leitores uma visão exata, mas compreensível, do humanismo psicanalítico? Como retirar a psicanálise de um pedestal por vezes pedante que obscurece a clareza de seu enfoque? E de que modo mostrar a firmeza com que se une ao bom-senso, despojando-a da falsidade de algumas grandiosidades idealizadoras que às vezes lhe são atribuídas?
Não obstante suas dificuldades, creio que essa tarefa de tantas jornadas foi bem sucedida. E, sem ditar regras, unindo a ótica psicanalítica ao senso comum, falando de angústias sem causar medo, os três livros realizam seu propósito. Podem assim ajudar o leitor a perceber mais nitidamente os elementos psicológicos que atuam nos problemas de seu dia-a-dia. E, removendo os obstáculos criados pelas idéias pré-formadas, têm a possibilidade de contribuir para a maior liberdade de seu pensamento e para um conhecimento mais profundo de si próprio e das pessoas em geral.
Roberto Bittencourt Martins
Membro da S.B.P.R.J.
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