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TÍTULO :Raquel Paiva e Muniz Sodré |
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“O Rio é uma ESCOLA DA FAMA”
(Por AILTON MAGIOLI).
Raquel Paiva e Muniz Sodré traçam a cartografia da televisão a partir do desejo contemporâneo pelo destino de celebridade, impulsionado pelas telenovelas
Fama é fortíssimo sujeito de poder e objeto de desejo na cidade do Rio de Janeiro”, conforme constatam os professores Raquel Paiva e Muniz Sodré, da Escola de Comunicação da UFRJ, no recém-lançado Cidade dos artistas – Cartografia da televisão e da fama no Rio de Janeiro, da Mauad Editora. Leitura obrigatória para os que já estão enfastiados com tanta telenovela e reality shows, o livro tem tudo para conquistar consciências críticas em um cenário dominado por candidatos à fama no qual, segundo os próprios os autores, “às presumíveis relações diretas e indiretas entre globalização neoliberal, urbanização segregacionista e violência urbana, acrescenta-se a celebridade, vetorizada por uma matriz de ilusões e identificações projetivas chamada “mídia”.
Cidade dos artistas é a segunda incursão da dupla no universo. Anteriormente, Raquel e Muniz haviam lançado, pela mesma editora, O império do grotesco, que aborda o fenômeno do grotesco e sua presença recorrente nas artes e na mídia em geral. De acordo com o professor, a idéia inicial do novo livro foi da companheira de escola, que havia se dado conta da existência de uma certa “promiscuidade” (no sentido que eles fixaram no livro) entre a cidade do Rio de Janeiro e o mundo dos espetáculos, atualmente capitaneado pela Rede Globo.
“Na verdade, promiscuidade é o termo usado pelo crítico de música popular José Ramos Tinhorão para falar do interculturalismo existente desde o início do século no Rio, entre setores populares e camadas médias”, esclarece Muniz Sodré, lembrando que Tinhorão exemplifica com Noel Rosa, que tomou emprestado do morro os temas pastoris e as especificidades do modo de vida da gente simples. “Tudo tem a ver com a topografia carioca: uma cidade espremida entre a montanha e o mar, em que favelas e asfalto afetam-se mutuamente”, acrescenta. Em entrevista ao ESTADO DE MINAS, Muniz Sodré alternou-se com Raquel Paiva nas respostas. Confira os principais trechos.
ESTADO DE MINAS – Por que a fama se tornou objeto de desejo social tão intenso nos últimos anos?
Raquel Paiva – Porque de certo modo a partir dos anos 80 extinguiu-se a forma tradicional de ascensão social, vetorizada por educação ou por possibilidades industriais de natureza "fordista". Em outras palavras, tornou-se muito difícil subir efetivamente na vida, prosperar autonomamente, o que dá espaço a que formas simulativas, vicárias, de ascensão entrem em cena. A televisão e a indústria do entretenimento em geral fornecem as oportunidades.
Qual é o papel da TV neste cenário?
Muniz Sodré – A TV, em especial a Rede Globo, constrói uma cidade imaginária, sem contradições de classe social, nem dissimetrias urbanísticas, onde se refaz simulativamente a vida comunitária. Cada telenovela recria um bairro carioca, cujo cotidiano encena uma espécie de encontro entre pessoas de diferentes situações de classe, mas sempre reunidas em torno de uma vicissitude familiar, uma bastardia, um pequeno mistério etc. A cidade é de fato metaforizada como um cenário. Os conflitos econômicos, se os há, resolvem- se na imaginária conciliação urbanística. A violência da segregação espacial do Rio, a que a violência da delinqüência parece dar uma resposta simbólica, não se faz presente no discurso televisivo.
O Rio de Janeiro, enfim, é a grande escola de fama que nós
temos?
RP – O Rio é, sem dúvida, a maior escola de fama brasileira. Primeiro, porque existe toda uma pequena cidade de produção televisiva, o Projac, em Jacarepaguá, que serve de atrativo para a permanência de artistas no Rio. Mas há também uma espécie de irradiação da dimensão telerreal para o resto da sociedade, que faz com que as regras da "vida" televisiva sejam experimentadas como realidade histórica. Se existir é aparecer no "espelho" televisivo, as pessoas comuns parecem esforçar-se para alcançar tal existência, seja entrando como figurantes em espetáculos da TV, seja aproximando- se de artistas, seja adotando seus estilos de vida ou de comportamento. Assim, a fama converte-se em tecnologia de relações sociais.
O que faz do Rio de Janeiro, Bombaim (Índia) e Los Angeles (EUA), citadas por vocês no livro, as principais capitais mundiais da fama?
MS– As cidades mencionadas têm em comum o fato de serem grandes centros de produção de espetáculos. Bombaim tem a ver com o cinema (a Índia produz cerca de 850 filmes por ano), Los Angeles com toda e qualquer indústria do entretenimento, e o Rio de Janeiro com televisão. Respira-se TV no Rio. As pessoas não apenas vêem as telenovelas, mas principalmente vivem telenovelescamente.
Podemos falar na existência de uma classe mídia, hoje?
RP – Classe mídia é um trocadilho oportuno para designar tanto as camadas sociais diretamente articuladas com mídia quanto uma nova fração de classe social, que ascendeu juntamente com o crescimento da indústria cultural. Cantores, atores, roteiristas, produtores "culturais" compõem esse estamento ou fração de classe, de forma economicamente desigual, mas sempre socialmente prestigiada. Há um novo tipo de poder em tudo isso. O ministro da Cultura do governo Lula, Gilberto Gil, provém desse fração de classe. As letras cederam lugar ao canto. A chamada cultura brasileira hoje parece toda contida no dó de peito...
Quais são as conseqüências desta nova realidade – dominada
pela mídia – sobre a cultura original do País?
MS – Não há nenhuma cultura original. Há, sim, um monopólio oficial de idéias que se intitula "cultura brasileira" e uma cultura dita popular que, se antes expressava-se nas formas urbanas rústico-plebéias, hoje parece inteiramente conformada pela televisão. A TV, como "boca do mundo", come tudo que lhe parece aproveitável ou apetecível. À consciência crítica resta ainda a possibilidade de regurgitar o excesso. Como o Rio conseguiu se tornar personagem de si mesma? MS – O Rio é o surdo, o tamborim, a cuíca, o que mais, dessa escola de samba chamada Brasil. Aqui, tudo repercute, tudo vira samba ou folclore. Podem mudar a capital para Brasília, podem concentrar o capital em São Paulo, podem descapitalizar as indústrias cariocas, podem evangelizar o governo, podem deixar perder-se o espaço social em benefício da bandidagem, mas o território carioca resiste de algum modo, escudando-se nisso que o núcleo do "pensamento" corporal brasileiro: a alegria. Como uma cidade dessas não poderia tornar-se personagem de si mesma?
A violência não vem contribuindo destruir a imagem da "Cidade
Maravilhosa"?
MS– Sempre houve violência social no Rio. Basta ler atentamente a história da cidade a partir do século XIX. Maior, porém, do que a violência visível dos assaltos, tiroteios e tropelias dos traficantes de drogas é a violência invisível do Estado, que mantém há séculos o status quo da segregação espacial. O que está havendo agora, e que beira o insuportável, é uma espécie de contralinguagem: a violência visível exprime tortuosamente a invisível. A cidade não é maravilhosa. Maravilhosa é a potência de vida de seus habitantes.
Qual é o papel do Carnaval e, mais especificamente da música
em si, na transformação do Rio em cidade espetacularizada?
RP – O Carnaval carioca é a maior ópera popularesca do mundo. Não há nada igual em qualquer outra cidade. É natural que esse antigo rito de calendário, para falar como os antropólogos, se converta num espetáculo de grandes proporções capaz de seduzir uma parte importante do fluxo turístico internacional. Para nós, o Carnaval já não é mais o que era. Mas, no fundo, quem se importa com isso? As formas culturais evoluem, o destino carioca é marcado pelo espetáculo.
Por que a telenovela brasileira (da Globo, especialmente) insiste m continuar vendendo a imagem de que o que é bom para a Zona Sul do Rio de Janeiro é bom para o Brasil?
MS – A Zona Sul carioca é uma ficção telenovelesca. Ela só existe como tal nos roteiros e nas filmagens da Rede Globo. É algo como James Bond deslizando em esquis numa montanha sob fogo de não sei quantas metralhadoras. Nenhuma bala o atinge, acredite quem quiser. Se você não acredita, está fadado a não se divertir, é um chato. Com a Zona Sul telenovelesca é a mesma coisa: acredita quem resolve suspender a descrença. Entre um capítulo e outro, pode dar um pulo a uma loja anunciada para consumir o último babilaque da moda (Estado de Minas -22/1/2005).
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